Eu quero a minha fada madrinha
Estava tão cansada. Era um misto de dormência e vigília quando aquilo apareceu.
Impossível esclarecer se era um sonho ou real. Sonhos são encantados ou são pesadelos. A vida real tem um sabor de loucura indefinível.
Olhei para aquilo. Era um duende? Um palhaço? Uma aberração da fada do dente? Um instante imóvel: eu não tinha medo, eu não tinha nada. A vida real nos tira isso, nos tira tudo. Era um estado letárgico em que minha única preocupação era classificar aquilo da forma mais racional possível.
“Escovou os dentes?”
Ah, eu sabia! A Fada do Dente, diante de mim. Deformada, cabelos de palhaço, coloridos.
“Sim, direitinho. Escovei depois do jantar, como sempre, metodicamente. Não consigo dormir se não escovar meus dentes!” – desabafei, pesarosa. Havia muitas outras coisas que não me deixavam dormir, se as ignorasse.... louça na pia, cobertor sobre os filhos...
“Ah, ah!” – desaprovação total daquela aberração de Fada do Dente. Ou não era? Era a Cuca? O Bicho Papão? O Homem do Saco?? Mas que saco! Não tinha saco!
“Aí está o seu problema... todo dia a mesma coisa. Você é escrava de suas obrigações. Eu estou aqui para acabar com isso!”
Ótimo. Era a Morte. Puxa... não pensei que fosse tão feia. Uma mistura de Bozo com aquele filme de terror dos palhaços assassinos e uma pitada de Chuck. Céus! Diante de tantas interrogações – deveriam todas estar estampadas em minha testa, também suada – aquilo se pronunciou mais uma vez. Uma voz terrivelmente irritante e desafinada.
“Muito bem, eu sou sua Fada Madrinha! E estou aqui para lhe conceder um único desejo!”
Não! Eu não poderia acreditar naquilo! Era uma alucinação horrorosa a minha fada madrinha. Ah, esperei tanto por ela! Quando criança, tantos sonhos! À espera de um príncipe encantado! Agora, depois de velha... me aparece uma aberração!! Não! Nem tinha mais o que pedir. A vida real havia destruído todos os meus sonhos... não! Mas tinha de haver algum! Tinha de haver.
Sentei-me na cama e afastei-me para aquilo sentar. Precisaria de tempo, ora bolas! O que pedir, o que pedir???? Eu preciso pedir! Mas não sei o que pedir! “Posso pedir qualquer coisa???”
“Sim, já disse... sou sua fada madrinha”
“É que você é tão feia!”
“É que você é tão velha...!”
“As fadas madrinhas ficam feias quando a gente fica velha?”
“É uma forma de ver o mundo, entende?”
Não. Eu não entendia por que estava conversando com aquilo, àquela hora da madrugada. Mas eu tinha um pedido a fazer. Suspirei.
“Vamos, querida, que eu tenho pouco tempo para lhe atender... As filas andam imensas. Somos poucas para atender uma grande demanda.”
“Imagino...”
“Então...?”
Olhei para o lado da cama. O maridão roncando pesado. Também babava um pouco no travesseiro. Era tudo o que eu sonhara – tirando o ronco e a baba – como sendo uma vida feliz. Era carinhoso. Queria envelhecer ao lado daquele ogro-príncipe-encantado. Não queria mudar de ideia. Hmmm, a casa... Era muito pequena, mas adorável. Os filhos... nada a reclamar. Amigos...? Os melhores... Apertei carinhosamente a camada adiposa que se formava na cintura... Lipo? Não... não... meu corpo cheinho não me incomodava... O que pedir, céus!, o que pedir?
Aquilo continuava lá, a minha Fada Madrinha com cara de Chuck... esperando. Parecia impaciente. A minha vida parecia perfeita... E eu não sabia o que pedir. E a coisa percebeu.
“Algo a deixa triste?”
A pergunta era tão simples, tão singela... tão doce... E foi como um raio. Minha mente iluminou-se. Eu estava prestes a fazer o pedido da minha vida. “Sim...”gritei, imediatamente tapando a boca e olhando para o ogro que não acordou. “Há algo que me deixa profundamente triste!”
O arremedo de fada suspirou. Finalmente estaria livre em alguns instantes. “E o que é? Louça suja? Casa por limpar? Xixi no boxe do banheiro? Cozinhar para a família inteira? Calos? Unhas quebradas? Joanete? Retoque de raiz em escova definitiva... Vamos, querida, ande logo! Tenho de passar na manicure, ainda!”
“O que me deixa mais triste... é quando eu preparo uma aula com aquele empenho... e os alunos sequer tomam consciência da minha presença! Quando me bate aquela solidão danada dentro de uma sala lotada, em que você é vista como uma inimiga... Ou então como uma serviçal qualquer. Sim! É isso!”
A fada jogou a lixa com que aparava as unhas horrorosas. Virou os olhos em sinal de tédio profundo. Arrumou as mechas alaranjadas atrás da orelhas enormes. Coçou a careca fazendo careta. “Você... é... professora???”
“S-s-sim... achei que soubesse!”
“Ora... e por que é que não disse logo?!, Fala sério! Não tenho tempo a perder querida!”
Nossa... que terrível foi aquela cena... A tristeza tomou-me por completo diante do que estava para fazer. Dei de ombros. Aquilo poderia ser mesmo um sonho. Proferi, deliciosamente: “Eu quero mudar de profissão!”Esse é o meu pedido.
“Então vamos lá... qual profissão querida?”
“Quais as mais cotadas para mulheres na minha situação?”
“A primeira é... deixa ver... prostituta... vai?”
Dessa vez a careta foi minha. “Claro que não...” Olhei novamente para o meu amado ogro. Nem pensar.
“Hmm, o segundo... passista de escola de samba?”
“Nem pensar, não sei sambar!”
“Ascensorista?”
“Nossa, alguém pediu isso...?”
“Duas professoras de matemática”
“Compreendo... mais alguma sugestão?”
“Policial do BOPE”
“Ta falando sério?”
“Fadas madrinhas sempre falam sério, mesmo que tenham cara de Chuck”
“Ta bom, acho que já sei... quero ser jornalista e escritora.”
“Tem certeza?”
“Sim”
“Tudo bem... mas continue escovando os dentes, ok?”
O ruído foi insuportável. O despertador era inconveniente! Onde já se viu expulsar a Fada-bozo? Era mesmo um sonho, que dúvida. A vida real, incansável, a perseguir-me.
Hora de fazer o café... Em instantes... lá estaria eu. Diante da lousa, diante de dezenas de alunos. Suspirando fundo. Contendo uma mágoa profunda... as lágrimas talvez. E eu que fiz um juramento. E eu que passei madrugadas infindáveis debruçada sobre livros para aprender coisas das quais ninguém quer saber mais. E eu que fiz provas de Latim... Outras madrugadas mais esfregando o banheiro, qual Gata Borralheira para quem não existe sapatinho de cristal, nem fadas... nem príncipe encantado. Para quem a mensalidade da faculdade era desumanamente maior que o salário magro de secretária. E mais algumas outras e outras madrugadas insones, lendo, estudando, fazendo planos... tendo consciência de que era possível ser gente, mesmo sendo professora.
Eu quero a minha fada madrinha!







Pessoas, queridas.
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